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quarta-feira, 30 de junho de 2010

As vitrines
Chico Buarque/1981


Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
-Dá tua mão
-Olha pra mim
-Não faz assim
-Não vai lá não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir

Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria
Cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão


1981 © - Marola Edições Musicais Ltda.
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Passando lá pelos quintais dos trens metropolitanos paulistanos (viagem de trem!),
Vi-me tomado por uma dessas impressões, inspirações que nos acometem "meia" vez por dia.
Numa delas, pensei a canção "As Vitrines" de Chico. Então, vamos a ela!

A presença de um pretenso diálogo marca, de saída, a intenção de se apresentar duas pessoas, ou mais. Todavia, todo diálogo pressupõe uma troca, alguém que responda.O tom de conselho também é outra marca, ainda que não denote "o caminho certo é o meu", algo do tipo.
A cidade é um vão. Oferece-nos a ideia de "trincheira", "espaço vazio", "nicho" ou ainda "avenida" pela qual passará algo. Esse algo chama a atenção por sua singularidade, por sua individualidade. Imiscuem-se cidade e o objeto do poeta-aconselhador: a cidade é tão singunlar quanto o ser e ambos, uma vitrine.
Segue-se a esta afirmativa uma negativa: "não vai lá não!"
Em "os letreiros a te colorir, embaraçam a minha visão" chama a atenção a marca da diferença conceitual: o que é luz para você, para mim é sombra: uma relação luz/sombra atinômica, ou seja, convivência de opostos. Onde um enxerga luz, o outro sombra. Ou ainda, o excesso de luz leva a uma não-visão. Mas, onde estaria esse excesso? o que um vê que o outro não enxerga? Temos aqui o mundo, e o homem, como representação. Uma vez que "letreiros", remete a ideia de signo, somos todos símbolos: é o homem sujeito e objeto do conhecimento.O conceito passa, necessariamente, pelo olhar.
Ainda nessa linha, outro paradoxo chama a atenção, qual seja a mistura de sentimentos alegria/aflição. Estar aflita e sair aos sorrisos pode ser uma demonstração de desespero que a própria "vítima" não se atente, não enxergue.
O primeiro toque de consciência, ou seja, de que o sujeito "sabe" o que lhe passa é "gostando de ser tua sombra". Aqui, o prazer de ser sombra, de permanecer nesse estado, de experimentar um único lado em detrimento de outros é curiosamente suspeito. Temos a multiplicação da sombra, numa espécie de "solidarização do desconhecido", ou, pulverização da ignorância, de que alguns são capazes. Além de sentir prazer nisso.
Mas o olhos ainda têm muito a nos mostrar. Nos olhos do sujeito vê-se a vitrine o vendo passar. Os olhos são a tele-tela do mundo. Por eles somos capazes de transcender. Na relação animado/inanimado temos as vitrines possuidoras de olhos, onde o inanimado vê o animado.Numa inversão perturbadora, o sujeito passa a ser o objeto do desejo inanimado. As coisas nos vêem e sobre nós exercem mandos, desmandos, opiniões e influências.

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